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    Cinema

    Também Somos Seres Humanos – 1945 (Resenha)

    Luiz Eduardo LuzBy Luiz Eduardo Luz30 de março de 2017

    O cinema, além de portal para mundos imaginários e forma de escapismo dos problemas do cotidiano, sempre foi, também, uma enorme vitrine para o retrato da realidade. É por isso que, desde seus primórdios, a sétima arte, como todas as outras, retratou a guerra. E, em meio a tantos conflitos, um sempre teve destaque: a Segunda Guerra Mundial.

    Vários motivos existem para isso, como a ascensão político-econômica dos Estados Unidos (que já eram uma potência cinematográfica), que saíram vencedores da guerra, e até mesmo o fato de ser a primeira guerra de larga escala a ocorrer com este meio já devidamente estabelecido, tanto estética quanto narrativamente. As batalhas que duraram entre 1939 e 1945 foram retratadas em grandes clássicos, como Tora! Tora! Tora!, Patton – Rebelde ou Herói? e O Resgate do Soldado Ryan.

    Entre esse enorme portfólio de obras sobre o conflito, encontra-se Também Somos Seres Humanos (The Story Of G.I. Joe, 1945). O filme, dirigido pelo ótimo cineasta William Wellman (Nasce Uma Estrela), mostra a história real de Ernie Pyle, célebre jornalista estadunidense que ganhou o Pulitzer por seu trabalho como correspondente na Segunda Guerra Mundial. O elenco numeroso e de extrema qualidade é liderado por Burgess Meredith (o Mickey, da série de filmes Rocky Balboa, interpretando Pyle) e pelo grande Robert Mitchum (O Mensageiro do Diabo).

    Basicamente, a estrutura do filme é episódica, não tendo um eixo narrativo central na qual a obra se desenvolve, e sim vários acontecimentos isolados que marcaram a “estadia” dos personagens na guerra. Noites em claro falando de casa, interações com civis locais, reuniões estratégicas e longas e frequentes caminhadas. Tudo isso é contado ao espectador por meio de Pyle e seus artigos no jornal. Frequentemente, ele é perguntado sobre o porquê de não ir para casa, já que ele é civil e tem idade muito superior à especificada para o serviço militar. A pergunta nunca é devidamente respondida, mas fica evidente que o jornalista cria uma espécie de amor por seus compatriotas, que sentem o mesmo por ele. Se não pode empunhar o fuzil e combater as forças do Eixo desta maneira, ele faz uso de sua própria arma: a caneta.

    Suas reportagens fazem sucesso no mundo todo, e até contribuem para a obtenção de benéficos para os soldados do exército (comumente injustiçados em relação às forças aeronáuticas). E é com um pelotão específico que Pyle produz sua relação mais forte: o comandado pelo Capitão Walker (Mitchum). Honrado, inteligente e gentil, ele é um exemplo para todos os seus subordinados, e também para o correspondente. Ambos criam laços fortes, os quais nem os próprios horrores da guerra podem destruir.

    Embora não seja focado em cenas de combate, o filme também não deixa a desejar quando elas vêm à tona. Equilibradas em duração e certeiras na direção e edição, as lutas são mecanismos que indicam ao espectador que, por melhores que sejam as pessoas retratadas no filme, elas continuam presas às suas obrigações militares e que, portanto, devem matar. O filme também é realista no aspecto primordial da guerra: pessoas morrem. Wellman não tem dó da audiência, retirando diversos personagens ao longo da narrativa. No fim, vem o golpe mais duro, e é difícil conter as lágrimas.

    Também Somos Seres Humanos foi um sucesso à época de seu lançamento, conseguindo quatro indicações ao Oscar, incluindo a de Melhor Ator Coadjuvante para Robert Mitchum, a qual, estranhamente, foi a única de sua brilhante carreira. A obra também foi responsável pela popularização do termo “G. I. Joe” nos Estados Unidos e no mundo. A sigla G. I. representa a frase “Government Issue”, isto é, “assunto do governo”, e era usada em pacotes de mercadorias de posse do estado. Durante a guerra, os superiores zombavam dos soldados os chamando de G. I. Joe, afirmando que as vidas deles pertenciam ao governo, sendo “Joe” um nome padrão, comum. Com a difusão do termo, uma empresa de bonecos aproveitou a oportunidade e lançou uma linha de figuras de ação chamadas G.I. Joe, que ficou famosa no mundo todo, migrando para diversas outras mídias, como revistas em quadrinhos, desenhos animados e até filmes.

    Essa é só mais uma prova de como o filme de William Wellman impactou sua época. Além de todos os componentes já citados, o principal fator que torna o filme um clássico é justamente o que diz o belíssimo título em português. Em meio ao caos e à selvageria de uma zona de guerra, o filme nos mostra pequenas atitudes e diálogos tão humanos que parecem destoar do cenário no qual os personagens estão inseridos. No fim, por mais forte que seja a tempestade, o que sempre permanecerá é a humanidade presente em cada um de nós.

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    Luiz Eduardo Luz
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    Publicitário, amante da sétima arte e colecionador de filmes, escreve sobre cinema para o Canto Dos Clássicos. Frase preferida do cinema: “Tudo bem, Sr. DeMille, estou pronta para o meu close-up.” – Crepúsculo dos Deuses.

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