A Bruma Assassina – 1980 (Resenha)

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Após uma com citação de Edgard Allan Poe exposta em uma tela negra envolta em uma melodia melancólica e misteriosa, às 23:30, em uma noite fria e sem luar, sentado à beira de uma fogueira em uma praia remota, várias crianças escutam com atenção um conto de mistério e terror de um velho “lobo do mar” até o momento das doze badaladas da meia-noite. Pronto. A partir dessa introdução John Carpenter já nos situou perfeitamente na atmosfera da fábula de terror que é A Bruma Assassina.

Se em Halloween Carpenter transita entre o real e o sobrenatural de forma instigante e nunca conclusiva, em A Bruma Assassina o diretor se fixa no teor fantasioso decisivamente. Apostando em um mistério que permeia o filme até o terceiro ato, o filme segue as ocorrências de uma névoa misteriosa que assombra a cidade litorânea de Antonio Bay. Uma névoa brilhante que começou a aparecer nos arredores do local ao mesmo tempo que eventos sobrenaturais e mortes inexplicáveis começam a ocorrer.

Fã confesso de H.P. Lovecraft, Carpenter incrementa sua narrativa com alguns pontos comuns ao universo fantástico daquele famoso escritor. O diário secreto do Padre Malone, que narra acontecimentos terríveis, bem como a ambientação do filme em uma região litorânea e a presença de criaturas misteriosas que são ocultadas por uma névoa, são toques que remetem as histórias de Lovecraft. Apesar disso, Carpenter faria sua maior homenagem ao escritor em seu subestimado À Beira da Loucura.

Em concordância com esse tom de fábula, Carpenter e seu diretor de fotografia Dean Cundey trabalham muito bem as cores saturadas e filtros (vermelho, azul, amarelo e verde) em momentos simbólicos do filme, como a sequência de assassinatos no barco durante o primeiro ato. Da mesma forma, é inteligente a decisão de Carpenter de não revelar completamente a verdadeira figura de seus vilões, criando sempre quadros interessantes ao explorar a silhueta daqueles espectros através da névoa, além de entregar apenas alguns planos detalhes de seus corpos. Essas táticas ajudam Carpenter a engrandecer a maquiagem modesta do filme e potencializar a sensação de ameaça enigmática.

O roteiro escrito pelo diretor, e por sua parceira Debra Hill, apresenta alguns momentos arrastados, porém, esses erros são contornados pela boa decisão dos roteiristas de criarem três núcleos diferentes que vão se cruzando à medida que o filme vai chegando ao seu ápice e a tensão começa a aumentar (e a decisão de colocar todos para se encontrarem encurralados em uma igreja é PERFEITA para a atmosfera do longa). Inclusive, o uso inspirado de igrejas no cinema de Carpenter não é novo, tendo seu ápice no posterior Príncipe das Sombras.

A própria direção de Carpenter é hábil para nos manter atento durante todo o filme. O diretor consegue trabalhar a profundidade de campo para potencializar o efeito da bruma pelos ambientes de forma exemplar (os quadros enfocando o farol dão uma sensação semelhante a 3D de tão bem gravados). Também é preciso destacar a forma como Carpenter faz a bruma parecer realmente viva, já que suas ondulações suaves em movimento reverso nos dão a impressão de que ela realmente tem vontade própria.

A trilha sonora criada por Carpenter, mais uma vez, é um dos fatores mais marcantes do filme. Mesclando tons melancólicos descofortáveis e enigmáticos com outros que lembram toques de órgãos característicos dos filmes de terror dos anos 20 e 30, Carpenter traz um clima perfeito para o tipo de narrativa. Sabiamente, o diretor muda a intensidade das melodias de acordo com a urgência das situações durante o filme, mesclando o crescendo da trilha com o apogeu insidioso da bruma sobre a pequena cidade.

A escalação dos atores é outro destaque do filme. Adrienne Barbeau faz um bom trabalho vocal como a radialista Stevie Wayne, trazendo um contraste curioso entre a carga sensual que transparece e o estilo de vida monótono que leva. Já o papel designado para Jamie Lee Curtis é uma subversão de seu papel de scream queen virginal que a despontou em Halloween; além de um comentário feminista interessante. Não devemos nos esquecer do bom desempenho de Hal Holbrook como Padre Malone, papel inicialmente ofertado a Cristopher Lee.

Já a boa participação da veterana Janeth Leigh (mãe de Jamie Lee Curtis) é uma referência clara a um dos ídolos do diretor, já que ela interpretou Marion Crane em Psicose. Não somente ela, como também a própria cidade de Antonio Bay, que nos traz lembranças de Bodega Bay, a cidade litorânea do clássico Os Pássaros; além do uso de artifícios do cinema mudo durante boa parte do primeiro ato do filme, que faz jus a alguns dos melhores momentos da carreira de Hitchcock.

A Bruma Assassina foi muito reprisado na televisão aberta brasileira no extinto “Cinema em Casa” (a versão do SBT para “Sessão da Tarde”) sob o título A Névoa Assassina. Inclusive, nessa época vários filmes de terror, como A Hora do Pesadelo, A Hora do Espanto, A Coisa, Christine – O Carro Assasino, Brinquedo Assassino dentre outros, eram reprisados nas tardes do SBT para jovens cinéfilos.

O filme ganhou o prêmio da crítica no Festival de Avoriaz em 1980 e concorreu ao prêmio de melhor filme de horror e melhores efeitos especiais do Saturn Award no mesmo ano.

Por influência de Carpenter, ou não, o conceito de criaturas por trás de uma densa névoa também gerou o conto O Nevoeiro de Stephen King, presente no livro Tripulação de Esqueletos; maravilhosamente adaptado para o cinema por Frank Darabont em 2007. Em 2005 o filme recebeu uma péssima refilmagem pelas mãos de Rupert Wainwright (Stigmata), contando com Selma Blair, Tom Welling e Maggie Grace no elenco. Justificadamente, a refilmagem foi fracasso tanto de público quanto de crítica. Para se ter uma ideia, o filme possui 4% de aprovação no Rotten Tomatoes.

Com uma atmosfera macabra permanente, vários momentos de tensão e uma boa conclusão, A Bruma Assassina é um clássico do terror dos nos 80. Um filme de fantasmas que prova que o essencial no subgênero é o talento do diretor, e não efeitos especiais rebuscados e sustos baratos.

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