Por que somos fascinados por personagens moralmente horríveis?

Autor(a):

Há algo profundamente contraditório na maneira como assistimos a filmes.

Na vida real, provavelmente manteríamos distância de um assassino, um criminoso, um manipulador ou alguém completamente incapaz de sentir culpa. No cinema, porém, muitas vezes fazemos exatamente o contrário.

Queremos acompanhá-los.

Queremos entender o que pensam. Queremos saber qual será sua próxima decisão. Algumas vezes, para nosso próprio desconforto, queremos até que eles consigam escapar.

Alex DeLarge, Michael Corleone, Norman Bates, Travis Bickle, Hannibal Lecter, Tony Montana e tantos outros personagens fizeram história interpretando pessoas que, se encontrássemos na vida real, provavelmente atravessaríamos a rua.

Então por que o cinema consegue nos fazer gostar tanto de pessoas tão moralmente horríveis?

A resposta talvez esteja menos nesses personagens e muito mais em nós mesmos.

O cinema nos permite chegar perto do perigo

Existe uma diferença fundamental entre conhecer alguém perigoso e observar alguém perigoso através de uma tela.

O cinema cria uma espécie de laboratório moral.

Durante duas horas podemos entrar na cabeça de um criminoso, acompanhar um assassino, observar alguém cometer atrocidades e depois simplesmente levantar da poltrona.

Estamos próximos do perigo, mas protegidos dele.

É justamente essa distância que transforma algo assustador na realidade em algo fascinante na ficção.

O mesmo mecanismo aparece em histórias de terror, crimes reais e relatos sobre serial killers. Existe uma curiosidade quase inevitável diante do comportamento extremo.

Queremos compreender aquilo que não conseguimos imaginar fazendo.

E talvez uma das perguntas mais poderosas que o cinema possa provocar seja justamente:

Como alguém chega até esse ponto?

Entender não significa concordar

Um dos grandes poderes do cinema é permitir que compreendamos personagens sem necessariamente aprovar suas ações.

Michael Corleone é um ótimo exemplo.

Em O Poderoso Chefão, Francis Ford Coppola não apresenta Michael simplesmente como um criminoso cruel desde o início. Pelo contrário.

Quando o conhecemos, ele parece ser justamente o membro da família Corleone que conseguiu escapar daquele mundo.

Ele é educado, inteligente, veterano de guerra e aparentemente determinado a viver longe dos negócios da família.

Mas então começamos a acompanhar suas escolhas.

Uma decisão leva à outra.

Proteção vira vingança.

Vingança vira poder.

Poder vira paranoia.

Quando percebemos, estamos observando um homem completamente diferente daquele apresentado no início.

E justamente porque acompanhamos cada pequeno passo dessa transformação, conseguimos entendê-la.

Isso não significa concordar com Michael.

Significa apenas que o filme nos mostrou como alguém pode chegar até ali.

E isso costuma ser muito mais perturbador do que simplesmente apresentar um vilão dizendo: “Eu sou mau”.

O monstro se torna mais interessante quando parece humano

Vilões completamente malignos podem funcionar muito bem.

Mas personagens moralmente complexos costumam permanecer conosco por muito mais tempo.

Norman Bates, de Psicose, poderia ter sido apenas um assassino assustador.

Hitchcock faz algo muito mais interessante.

Norman é tímido, estranho, educado e até aparentemente vulnerável.

Durante alguns momentos, sentimos pena dele.

Anthony Perkins constrói um personagem tão delicado e desconfortável que o público começa a perceber Norman como uma pessoa antes de percebê-lo como ameaça.

Isso muda tudo.

Porque monstros abstratos são fáceis de rejeitar.

Seres humanos são mais complicados.

Quando descobrimos que alguém capaz de cometer algo terrível também sente medo, solidão, amor ou insegurança, somos obrigados a abandonar aquela confortável divisão entre pessoas boas e pessoas más.

O cinema adora destruir essa fronteira.

Eles fazem coisas que nós jamais faríamos

Existe também um componente de fantasia.

Personagens moralmente questionáveis frequentemente ignoram regras sociais que governam nossa vida cotidiana.

Eles dizem coisas que não diríamos.

Enfrentam pessoas que evitaríamos.

Buscam vingança.

Quebram regras.

Desafiam autoridades.

Tomam decisões impulsivas.

Essa ausência de limites pode produzir uma estranha sensação de liberdade.

Tony Montana, de Scarface, é criminoso, assassino, paranoico e extremamente autodestrutivo.

Ainda assim, durante décadas tornou-se símbolo de ambição e poder.

Curiosamente, muita gente parece lembrar mais da ascensão de Tony Montana do que de sua queda.

Mas o filme inteiro é justamente sobre isso.

Sua vida não é uma história de sucesso.

É uma tragédia.

A fantasia está em observar alguém vivendo sem os freios que controlam o comportamento da maioria das pessoas.

O preço dessa liberdade costuma aparecer no final.

E geralmente é alto.

O carisma bagunça nossa bússola moral

Talvez uma das armas mais perigosas desses personagens seja simplesmente o carisma.

Hannibal Lecter é um assassino e canibal.

Isso deveria encerrar qualquer possibilidade de simpatia.

Mas então Anthony Hopkins aparece em O Silêncio dos Inocentes falando calmamente, demonstrando inteligência extraordinária e analisando cada pessoa ao seu redor em segundos.

De repente, Lecter é uma das figuras mais fascinantes do filme.

Ele é monstruoso.

Mas também é elegante, inteligente, articulado e extremamente consciente de tudo o que acontece.

Nossa percepção moral começa a entrar em conflito com nossa percepção dramática.

Sabemos que ele é terrível.

Mesmo assim queremos vê-lo novamente.

Cinema é manipulação.

Escalação, fotografia, roteiro, música, enquadramento e atuação podem tornar alguém fascinante mesmo quando suas atitudes deveriam provocar apenas repulsa.

E alguns diretores sabem utilizar isso muito bem.

Quando o filme coloca você dentro da cabeça do personagem

Stanley Kubrick faz algo particularmente desconfortável em Laranja Mecânica.

Alex DeLarge é violento, cruel e praticamente incapaz de demonstrar empatia.

Mesmo assim, o filme é narrado por ele.

É Alex quem nos apresenta aquele mundo.

É sua linguagem que ouvimos.

É seu olhar que guia a história.

Essa escolha cria uma proximidade perigosa.

Quanto mais tempo passamos com Alex, mais familiar ele se torna.

E familiaridade tem um efeito poderoso.

Começamos a reconhecer seus gestos, seu humor, seus gostos e sua maneira particular de enxergar o mundo.

Ele continua sendo uma pessoa terrível.

Mas deixa de ser apenas “o monstro”.

Passa a ser Alex.

Esse é um dos grandes truques da narrativa.

Quanto mais conhecemos alguém, mais difícil se torna reduzi-lo a uma única característica.

Às vezes vemos parte de nós nesses personagens

Talvez essa seja a parte mais desconfortável.

Alguns personagens moralmente terríveis possuem sentimentos perfeitamente reconhecíveis.

Raiva.

Inveja.

Frustração.

Solidão.

Medo.

Desejo por reconhecimento.

Necessidade de pertencimento.

Ressentimento.

O problema não está necessariamente no sentimento.

Está no que eles fazem com ele.

Travis Bickle, de Taxi Driver, talvez seja um dos melhores exemplos.

Travis é profundamente solitário e alienado.

Ele observa a cidade através do para-brisa de seu táxi e parece incapaz de encontrar qualquer conexão verdadeira com as pessoas ao redor.

Solidão é uma experiência extremamente humana.

Alienação também.

O espectador pode reconhecer esses sentimentos.

Mas Travis começa lentamente a transformar seu isolamento em ressentimento e violência.

É exatamente nessa diferença que surge o desconforto.

Podemos compreender sua dor sem aceitar sua resposta.

E talvez seja justamente isso que torna o personagem tão poderoso.

O perigo começa quando confundimos compreensão com admiração

Existe, porém, uma linha interessante entre achar um personagem fascinante e transformá-lo em modelo.

Alguns dos personagens mais moralmente problemáticos da história do cinema acabaram sendo romantizados pelo público.

Tony Montana virou símbolo de sucesso.

Patrick Bateman virou meme aspiracional.

Travis Bickle foi transformado por alguns espectadores em figura de rebeldia.

Alex DeLarge ganhou uma estética quase pop.

É uma ironia curiosa.

Muitas dessas histórias foram criadas justamente como críticas aos próprios comportamentos que parte do público passou a admirar.

Isso acontece porque personagens raramente são lembrados apenas por aquilo que fazem.

Eles são lembrados pela aparência, pelas frases, pelo figurino, pela música, pela postura e pelo carisma dos atores.

A imagem pode sobreviver à mensagem.

E às vezes sobreviver até demais.

O cinema também testa nossa própria moral

Talvez a pergunta mais interessante não seja:

“Por que gostamos desse personagem?”

Talvez seja:

Até onde estamos dispostos a acompanhá-lo?

Grandes filmes frequentemente transformam essa questão em jogo.

Primeiro nos aproximam.

Depois nos fazem simpatizar.

Depois apresentam decisões cada vez mais difíceis de justificar.

E então observam até onde seguimos.

Em algum momento surge uma ruptura.

Para alguns espectadores ela acontece cedo.

Para outros, muito tarde.

Esse limite revela algo interessante sobre nossa relação com moralidade, violência, carisma e poder.

É uma experiência que o cinema consegue produzir de maneira extraordinária.

Ele pode fazer você torcer por alguém e, segundos depois, fazê-lo perceber exatamente por quem estava torcendo.

Talvez gostemos deles porque são humanos demais

Existe uma ideia confortável de que pessoas terríveis são completamente diferentes de nós.

Que existe uma fronteira clara separando o bem do mal.

O cinema frequentemente sugere algo muito mais inquietante.

Pessoas são contraditórias.

Podem amar alguém e destruir outra pessoa.

Podem ser gentis em determinado momento e cruéis no seguinte.

Podem acreditar sinceramente que estão fazendo a coisa certa enquanto cometem algo terrível.

Os melhores personagens moralmente questionáveis não funcionam porque parecem monstros.

Funcionam porque, em algum nível, conseguimos reconhecer humanidade neles.

E talvez seja exatamente isso que nos assuste.

Porque quando um personagem completamente diferente de nós comete algo horrível, podemos simplesmente chamá-lo de monstro.

Mas quando entendemos seus medos, desejos e frustrações, a distância diminui.

E o cinema nos obriga a olhar novamente.

No fim, talvez não estejamos fascinados pelo mal

Estamos fascinados pela possibilidade de compreendê-lo.

Queremos saber como alguém cruza determinadas linhas.

Queremos descobrir até onde uma pessoa consegue justificar suas próprias escolhas.

Queremos observar o momento em que alguém deixa de ser vítima das circunstâncias e passa a ser responsável por aquilo que se tornou.

Personagens como Michael Corleone, Alex DeLarge, Norman Bates, Travis Bickle e Hannibal Lecter permanecem na cultura não porque sejam exemplos de comportamento.

Muito pelo contrário.

Eles permanecem porque nos colocam diante de algumas das perguntas mais incômodas que uma história pode fazer.

O que transforma alguém em uma pessoa terrível?

Quanto conseguimos perdoar quando conhecemos suas motivações?

E talvez a mais desconfortável de todas:

se tivéssemos vivido exatamente a mesma vida, teríamos feito escolhas tão diferentes assim?

NOVO APLICATIVO OFICIAL
Classicfy App

O Canto dos Clássicos Agora é um Aplicativo

Migramos todo o nosso acervo para uma plataforma muito mais rápida, interativa e sem anúncios invasivos.

🎬
Feed TikTok Style Nosso conteúdo no estilo Reels
📚
E-books Exclusivos Leitura imersiva e interativa
🏆
Quizzes Diários Teste seus conhecimentos
Acesso Instantâneo Funciona no Celular e no Computador
ACESSAR O NOVO APP AGORA